É o que diz o ditado popular, e o significado verdadeiro nem sempre é revelado na língua do povo. Mas, tudo que o povo diz tem um fundo de verdade. Era o que acontecia com o nome “Spinelli” ao ser pronunciado em rodinhas de amigos, associava-se ao alfaiate da rua Chile que além da fama de um bom profissional, tinha também um dom quase que exclusivo com as mulheres.
“Spinelli” tinha 1,20cmts. de altura em um corpo roliço e pernas arqueadas, rosto redondo cheio, cabelos pretos encaracolados. Muito risonho e conversador, vestia-se com bom gosto, sempre de terno e gravata, usava perfumes franceses. Seu atellier era bastante concorrido por homens de boas situações financeiras. Curioso era que ele tinha várias escadas pequenas, médias e uma grande para subir e medir as roupas dos seus clientes. Ele não gostava de zombaria, virava uma fera quando alguém criticava-o e jamais para àquela pessoa ele costurava. Não tinha família era órgão. Quem melhor pôde descrevê-lo é a viúva Clotilde, senhora de hábitos metódicos, muito clementes a Deus e tinha a suave profissão de modista, colega de tesoura do afamado “Spinelli”. Aliás, quem cresceu a fama de “Spinelli” foi a Clotilde em conversas com a sua clientela. Dizia a tagarela: “ Ah! minha amiga, todos os homens são iguais. Porém, eu conheço um que é maravilhoso, embora não seja bonito e nem ao menos ter a estatura normal de um homem, levo em consideração a sua performance no trato e no ato sexual.” Com essas palavras as mulheres presente assanharam-se em curiosidade, faziam perguntas e terminava a Clotilde dizendo o nome do venturoso “Spinelli”. Com isso, à Clotilde sem saber enchia à tulha do “Spinelli”, para o espanto dos homens seus clientes. É atribuído a ele centenas de casos, cada um mais hilariante. Vejamos o relato abaixo da Clotilde “Ao abraçar àquele corpo miúdo, a princípio, lembrava do meu filho caçula
Os nossos encontros eram no seu atellier, nos dias de quarta-feira à tardinha, quando não havia mais clientes. Eram uma loucura as nossas transas, a melhor posição para ele era; eu com o corpo deitado no meio da cama, em sentido vertical, com as pernas dobradas para o ombro ( posição frango assado ) e ele, em pé sobre uma escadinha no beiral da cama, dando à frente para o meu corpo. Proporcionando-me um gostoso vai e vem ininterrupto e inigualável prazer”.
Mal sabia ela que essas revelações iriam criar ciúmes e inveja nas suas clientes, ávidas por prazeres adormecidos. Dentre essas clientes, tinha uma que não se conteve e logo que chegou em casa telefonou para o ditoso alfaiate, pedindo para ele fazer um espartilho da última moda. Ele acrescentou que geralmente seus clientes são homens e muito raramente mulher. Aceitou em vista da insistência e marcou horário.
Ao deparar com o sr. “Spinelli”, ela sentiu-se culpada e quase deu meia volta. Parou, viu o sorriso e a voz carinhosa do alfaiate, fez lembrar as palavras da amiga Clotilde sobre o desempenho sexual do pequeno homem e estendeu-lhe à mão, no gesto de saudação e a outra mão, mal coube dentro da mão grande e macia da visitante.
“Spinelli” mostrou o novo mostruário de espartilho, ela escolheu o que tinha menos travas. Ao terminar, ele pede que ela vá experimentar no biombo. Como o espartilho precisa de outra pessoa para apertar por trás, ela chamou-o e o alfaiate trepou na escada de três degraus, ficando ainda mais baixo do que ela. Ao vê-la, seminua de frente para o espelho, segurando a parte da frente do espartilho ele conteve a beleza, mas ela não controlou seus impulsos e virou-se deixando cair o espartilho, mostrando os seios duros e bicos salientes, diante dos olhos arregalados do alfaiate. Ela abraçou o pequeno assustado de tal maneira que escondeu o corpo e ambos foram ao chão, por causa do impacto do abraço. Aí, surgiu o primeiro beijo com esfregões, ele por cima dela a balançar as curtas pernas e ela abraçando-o para não sair da posição. Nada falaram, os movimentos rápidos e as roupas saindo dos corpos foram o suficiente para chegarem aos nus. Ela quando viu o pau da bandeira, sorriu e pediu a ele que sentasse no terceiro degraus da escada porque ela já estava de joelho pronto para boquear a manjuba rígida. Em poucos minutos o alfaiate dava gritos e gemidos, causando-lhe espasmo. Passando alguns segundo, já estava ele com a manjuba firme esperando o bote da fêmea que deitada abriu às pernas para receber o prêmio merecido. Novos gritos ouvem-se no ar, carregado de luxúrias inconfessáveis. E os dois amantes, descarregam no acoplamento todas as suas ansiedades incontroláveis”.
Creio que o espartilho foi feito em meios de gritos e sussurros no atellier do famoso “Spinelli”.
Certo amigo, contou-me que “ um determinado senhor da nossa sociedade, sabedor da fama do “Spinelli”, resolveu tirar as dúvidas e foi lá. Encomendou um terno de linho e quando foi experimentar, solicitou ao alfaiate que apertasse mais a cintura e a barquilha da calça, o alfaiate negou, dizendo que estava justo à cintura e a barquilha tem que ter folga, Aí em tão, o cliente pede para tirar novas medidas, novamente o alfaiate trepou na escada e fez novas medições no corpo gordo e desajeitado e ao descer da escada, com surpresa, o cliente tirou a calça, ficando de ceroulas e pediu para ele ter como modelo à calça que estava na sua mão. Feito o pedido, voltou-se para o cliente e confirmou às medidas. Porém, neste momento o cliente baixou a ceroulas e ficou de quatro, pediu por favor, ao alfaiate para colocar a manjuba na sua rosquinha que estava pronta para receber. Ouvindo essas palavras o alfaiate não vacilou, pegou a escada de dois degraus, tirou a roupa e enfiou sem vaselina na rosquinha do cliente. Só ouviu o grito do cliente pedindo para tirar e o alfaiate disse; só entrou à cabeça, agora é esperar o resto”.
São essas e outras histórias que ouvimos de antigos comerciantes da rua Chile, famoso locadouro de Salvador no passado distante.
Já no bar próximo da rua Chile, chamado “Café das meninas” sempre tinha uns comentários a respeito de “Spinelli” o que circulava no momento é a história do ônibus que ele usava para transportes de ida e volta para o atellier. Dizia as más línguas, que em uma dessas viajens, ele entrou no ônibus cheio e como não havia lugar para sentar resolveu ficar em pé, preso entre um trazeiro de uma mulher e uma perna longa de um homem. Não havia nem como segurar em um ferro para equilibrar o seu corpo. Cada vez mais o ônibus enchia, havia momentos que o ônibus freava subitamente e o seu rosto ia de encontro á nádegas volumosa de uma mulata. De tanto ir e vir saltaram um peido e ele recebeu o odor direto no rosto. Sufocado, ele foi empurrando as pessoas, louco para sair do ônibus e não conseguia. Só no próximo freio à porta abriu-se e ele foi rolando pra fora do
veículo já estacionado no ponto. Quebrou à cabeça e escoriações nos braços e roupas lascadas, tonto na calçada. Uma mulher ao passar por ele caído no chão, teve pena e abaixou-se para levantar o corpo do garoto que ela achava. Como ela usava óculos de lente grossa, não deduziu que ele era um anão. Levou-o para a sua casa e lá teve o cuidado de tirar a roupa do “garoto adormecido”. Ao vê-lo nu, gritou. Oh! meu Deus, o garoto é aleijado!... Olhou de perto e exclamou: “ Xi!... Essa rola dura deve ser uma benção” e começou a pegar, não é que ela cresceu na mão da mulher e o “garoto” abriu os olhos em cima da mulher sorrateira. Ela disse: “Viji! que garoto é esse... Ele acrescentou: Minha senhora, a brincadeira acabou, vamos fazer a verdade. Ouvindo a voz grossa do “garoto” ela disse: “Ué, você é anão”? Sim, sou pequeno mais tenho documento de homem grande.
E assim vão outras histórias do finado “Spinelli”. Por ironia do destino, ele tinha colocado uma placa de propaganda em baixo da janela do seu atellier, bem em frente à rua Chile com essas frases: “ ADÃO NÃO SE VESTIA PORQUE SPINELLI NÃO EXISTIA”.
Álvaro Bento Marques.
SSA, 26.01.2008.
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